
Resposta rápida: Sim, o cigarro eletrônico estraga o implante e prejudica a saúde bucal como um todo. Estudos publicados entre 2024 e 2025 mostram que o vape altera o microbioma da boca, aumenta inflamação na gengiva, reduz a vascularização do osso e eleva o risco de peri-implantite. Quem vapeia tem maior chance de complicação na cicatrização e na osseo-integração dos implantes do que quem não fuma.
Quem nunca acendeu um cigarro tradicional na vida pode achar que o pod, o vape ou o “puff” é só um vapor com cheirinho de melancia. A indústria vendeu essa imagem por anos. A ciência, principalmente nos últimos dois anos, vem desmontando ela de forma consistente.
Em 2026, no mês do Dia Mundial Sem Tabaco (31 de maio), a Thiesen Odontologia traz um panorama do que já sabemos sobre os efeitos do vaping na boca. A discussão começa pela saúde bucal de todo dia (a gengiva que sangra, o dente que mancha, o hálito que muda) e termina onde dói no bolso e na autoestima: implantes que não pegam e cicatrizações que travam.
O que é o cigarro eletrônico (e por que ele engana tanta gente)
O cigarro eletrônico, também chamado de vape, pod, e-cigarro ou DEF (Dispositivo Eletrônico para Fumar), funciona aquecendo um líquido com nicotina, propilenoglicol, glicerina vegetal e flavorizantes. O resultado é um aerossol, e não fumaça de combustão. Daí a falsa sensação de “limpinho”.
O problema é que esse aerossol carrega substâncias químicas que entram em contato direto com a mucosa da boca, a gengiva, o esmalte dos dentes e o tecido ósseo. E carrega nicotina. Muita nicotina, em sais que são absorvidos rapidamente.
No Brasil, a venda é proibida pela Anvisa desde 2009, mas o consumo cresceu 476% entre 2018 e 2023 segundo levantamento do Ipec divulgado no início de 2024, considerando pessoas de 18 a 64 anos em cidades urbanas com mais de 20 mil habitantes.
Os jovens são o grupo mais afetado: dados do Covitel 2023 mostram que a proporção de pessoas entre 18 e 24 anos que experimentaram o cigarro eletrônico foi 10 vezes maior do que a dos idosos com 65 anos ou mais.
Em outras palavras, o vape virou o caminho de entrada para a dependência de nicotina de toda uma geração que cresceu vendo o cigarro tradicional como coisa “ultrapassada”.
Vaping estraga os dentes? Sim, e a ciência tem nome para cada problema
Esse é o ponto que mais surpreende paciente em consulta. Muita gente chega achando que o vape, no máximo, deixa um cheiro doce na boca. A literatura científica de 2024 e 2025 desenha um cenário bem diferente.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 na Frontiers in Oral Health, com base em estudos coletados até setembro de 2024, analisou o efeito do tabagismo eletrônico em cárie dentária e marcadores pró-inflamatórios.
A pesquisa, conduzida pela Universidade de Gotemburgo (Suécia) em parceria com a Jordan University of Science and Technology, cruzou dados de dezenas de estudos das bases PubMed, Embase, Web of Science e Scopus. O resultado: o vaping está associado a aumento de cárie, mudanças nas bactérias da boca e elevação de marcadores de inflamação.
Outra revisão guarda-chuva publicada em 2025, dessa vez com afiliação brasileira (São Leopoldo Mandic), foi ainda mais direta. A conclusão é que o uso de cigarros eletrônicos pode contribuir para a disbiose do microbioma oral e favorecer o acúmulo de biofilme, aumentando o risco de doenças como periodontite, peri-implantite, candidíase oral e cárie.
Traduzindo: o vape mexe com o equilíbrio das bactérias da sua boca. Quando esse equilíbrio quebra, várias coisas saem do lugar ao mesmo tempo.
Os efeitos mais comuns que o dentista vê no consultório
- Boca seca crônica (xerostomia), porque o propilenoglicol retém água. Menos saliva significa mais cárie, mais placa, hálito ruim e desconforto constante.
- Gengiva inflamada com sinais “mascarados”: a nicotina contrai os vasos sanguíneos, então a gengiva sangra menos mesmo doente. Você acha que está tudo bem e a inflamação avança em silêncio.
- Manchas amareladas e escurecimento do esmalte, principalmente nos líquidos com nicotina mais pigmentada.
- Bruxismo e tensão muscular ligados à nicotina, que aumenta atividade muscular involuntária.
- Aumento da retração gengival, expondo a raiz do dente e gerando sensibilidade.
Se você sente qualquer um desses sinais e usa vape, vale conversar com o dentista. Se a gengiva está sangrando ou inchada, dá pra entender melhor o que pode estar acontecendo nos textos sobre gengiva sangrando e gengiva inchada do nosso blog.
A questão silenciosa: a gengiva que não sangra mais
Esse ponto merece um parágrafo dedicado, porque é traiçoeiro.
Numa gengivite comum, o primeiro sinal é o sangramento ao escovar ou usar fio. Esse sangramento é o jeito do corpo avisar que tem inflamação ali. Em pessoas que usam cigarro eletrônico, a nicotina exerce vasoconstrição nos vasos sanguíneos da gengiva, o que reduz o sangramento gengival em comparação com quem não fuma.
Resultado: a inflamação continua acontecendo, o osso continua sendo reabsorvido, mas o paciente acha que está tudo bem porque “não sangra mais nada”.
Em 2025, uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Journal of Dentistry reforçou esse cenário. A análise concluiu que usuários de cigarro eletrônico têm risco maior de doença periodontal do que não-fumantes, embora menor que o de fumantes de cigarro convencional.
Ou seja, comparar vape com cigarro tradicional para se sentir seguro é uma armadilha. O parâmetro real é a boca saudável, e o vape está claramente abaixo dela.
E o impacto em tratamentos? Aparelho, Invisalign e estética
Se você está em tratamento ortodôntico ou planeja começar, vale dobrar a atenção. Aparelhos fixos e alinhadores invisíveis tipo Invisalign dependem de gengiva saudável e higiene impecável para funcionarem bem. Vape entra em rota de colisão direta com isso: aumenta placa, seca a boca, mascara inflamação.
Em tratamentos estéticos como clareamento, lentes e facetas, manchas pelo vape acabam encurtando a vida útil do resultado. E em casos de retratamento (paciente que já fez algum procedimento e quer refazer), o histórico de uso de cigarro eletrônico costuma aparecer como um fator a ser conversado antes de prosseguir, justamente para evitar perda do investimento.
Como o cigarro eletrônico estraga o implante dental: a parte que mais preocupa
Agora vamos ao núcleo da pergunta que dá título a este texto.
Um implante dentário funciona porque um pino de titânio é integrado ao osso da mandíbula ou da maxila num processo chamado osseointegração. Para isso acontecer, o osso precisa receber sangue, oxigênio e células ósseas em ritmo normal durante semanas a meses. Qualquer coisa que atrapalhe essa vascularização compromete o resultado.
A nicotina faz exatamente isso. Provoca vasoconstrição (vasos contraídos), reduz fluxo sanguíneo na gengiva e no osso ao redor do implante, e ainda inibe a atividade de osteoblastos (células que constroem osso) enquanto ativa osteoclastos (células que reabsorvem osso).
O tabagismo causa alterações na composição da matriz óssea e piora a mineralização óssea, levando à fragilidade do osso, e inibe diversos processos associados com a formação de novos vasos sanguíneos (angiogênese), importantes na osseointegração e na remodelação óssea ao redor dos implantes.
Tudo isso foi comprovado primeiro para o cigarro tradicional. Mas estudos específicos sobre o vape vêm chegando à mesma conclusão.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 no Journal of Dentistry mediu o efeito do cigarro eletrônico em parâmetros peri-implantares. Os pesquisadores analisaram sete estudos e concluíram que os cigarros eletrônicos causam aumento da profundidade de sondagem, perda óssea e elevação de IL-1β (um dos mediadores da destruição óssea) nos tecidos ao redor do implante, além de redução do sangramento à sondagem.
Esse último ponto reforça o problema do sinal mascarado: o paciente parece estar bem clinicamente, mas o exame mais detalhado mostra perda óssea acontecendo.
Uma revisão integrativa brasileira publicada em 2026 na Revista DCS chegou a uma síntese ainda mais incisiva. Os estudos apontam que o uso de cigarros eletrônicos é um potencial fator de risco para a peri-implantite e, consequentemente, para o sucesso do tratamento com implantes.
O uso do cigarro eletrônico gera altos níveis de citocinas pró-inflamatórias, induzindo respostas que levam à destruição óssea e tecidual, além de comprometer o processo de cicatrização.
O que isso significa na prática para quem vai colocar implante
| Fator | O que acontece sem vape | O que acontece com vape |
| Vascularização do osso | Fluxo sanguíneo normal | Reduzido por vasoconstrição |
| Cicatrização pós-cirúrgica | Dentro do prazo esperado | Mais lenta e instável |
| Osseointegração | Estável | Risco maior de falha |
| Sinais de inflamação na gengiva | Visíveis e detectáveis | Mascarados pela nicotina |
| Peri-implantite | Risco padrão | Risco significativamente maior |
| Perda óssea ao redor do implante | Mínima | Acelerada |
A peri-implantite é uma doença inflamatória que destrói o osso ao redor do implante. Quando ela se instala, frequentemente o caminho é remover o implante, fazer enxerto e refazer tudo. Isso significa novo investimento, novo período de cicatrização, e uma carga emocional importante para o paciente que achava que o problema estava resolvido.
Se você quer entender melhor como o implante funciona do zero, vale dar uma olhada no nosso conteúdo sobre colocação de implante dentário e nos exames que pedimos antes da cirurgia. Pacientes que param de fumar antes da cirurgia, segundo a literatura, melhoram bastante o prognóstico.
E quem já tem implante e começou a vapear?
Esse é um cenário comum em consultório, especialmente entre pacientes mais jovens que receberam implante por trauma ou agenesia (ausência congênita de dente) e depois passaram a usar pod por questão social.
A recomendação é direta: avaliar a saúde peri-implantar com frequência. O uso de cigarro eletrônico está associado a sinais de doença periodontal como aumento de placa, bolsas periodontais mais profundas e perda óssea ao redor dos dentes, e os mesmos mecanismos atuam ao redor do implante. Quanto antes a inflamação for detectada, maior a chance de reverter sem perder o implante.
Por que conversar sobre isso agora
O Dia Mundial Sem Tabaco existe desde 1987, criado pela OMS. Em 2026, o foco está justamente nas novas formas de consumo de nicotina, com destaque para o vape. Não é coincidência.
Dados do INCA mostram que a maior prevalência de uso atual de Dispositivos Eletrônicos para Fumar no Brasil está na faixa etária de 15 a 24 anos (2,38%), perfazendo 70% dos consumidores atuais de DEF. Uma geração inteira está começando o hábito da nicotina por aí, e os efeitos na boca aparecem antes dos efeitos no pulmão.
Para a clínica, isso significa atender cada vez mais pacientes jovens com sinais que antes só apareciam em fumantes de 40, 50 anos. Para o paciente, significa decidir hoje se quer pagar essa conta lá na frente.
Como reduzir os danos enquanto não para totalmente
Parar é o ideal. Mas a Thiesen entende que o caminho até lá nem sempre é linear. Algumas medidas práticas reduzem o impacto enquanto o processo de parar acontece:
- Hidratação constante: para compensar a boca seca causada pelo propilenoglicol.
- Higiene reforçada: escovação três vezes ao dia, fio dental diário, escova interdental se houver aparelho fixo ou prótese sobre implante.
- Limpeza profissional a cada quatro meses: em vez do padrão semestral, para remover biofilme antes que vire problema maior.
- Avaliação peri-implantar específica: se você tem implante e usa vape. Não basta a consulta de rotina.
- Buscar apoio profissional para a cessação: (médico, psicólogo, programa público de controle do tabagismo).
O sorriso que você quer começa pelas escolhas de hoje
A pergunta inicial deste texto já tem resposta. Mas o ponto principal não é assustar, e sim trazer uma decisão informada. O cigarro eletrônico mexe com gengiva, dente, osso e implante de formas que a ciência conhece cada vez melhor. E que, no nosso consultório em Florianópolis, a gente vê acontecer na prática.
Trocar o hábito por algo que sustente seu sorriso a longo prazo é uma das decisões com maior retorno emocional que existem. Se você está nessa dúvida, ou já tem algum sinal que está incomodando, agendar uma avaliação é o passo mais simples e mais útil que você pode dar agora.
Hora de cuidar do que dura uma vida
Seu sorriso é um dos pouquíssimos cartões de visita que você carrega o tempo todo, em qualquer foto, qualquer reunião, qualquer primeiro encontro. Tratamentos como Invisalign, implantes e procedimentos estéticos são investimentos que valem o que valem porque são feitos para durar décadas. Um hábito que compromete esse retorno merece, no mínimo, uma conversa franca com seu dentista.
Se você quer entender melhor o caminho de um sorriso saudável e bonito do começo ao fim, baixe gratuitamente o nosso Guia do Sorriso Perfeito. É um material completo, em linguagem direta, sobre as etapas, os cuidados e as decisões que importam de verdade. Ele ajuda quem está em dúvida sobre por onde começar e também quem já começou e quer proteger o resultado.
Responsável técnico pelo artigo: Guilherme Thiesen CRO-SC 6117, Pós-Doutor em Ortodontia, Mestre e Doutor em Odontologia, certificado pelo Board Brasileiro de Ortodontia e Ortopedia Facial – BBO e palestrante internacional Invisalign.
